Depende. No colesterol alto em quem treina, o treino não dispensa a avaliação. O exercício melhora o perfil de gorduras e reduz o risco do coração, mas não apaga um LDL alto que vem da genética. A decisão de tratar com remédio depende do seu histórico, do nível do LDL, de há quanto tempo ele está alto e de outros fatores de risco, como a lipoproteína(a).

Essa é uma das dúvidas que eu mais escuto de quem treina: "eu me exercito, como bem, sou magro. Preciso mesmo de remédio?". A resposta curta é que o treino ajuda muito, mas não decide sozinho.

Por que quem treina e come bem pode ter colesterol alto?

Porque o colesterol não depende só do estilo de vida. Uma parte importante vem da genética, de como o seu fígado produz e retira o LDL (o chamado colesterol ruim) do sangue.

A Diretriz Brasileira de Dislipidemias de 2025, da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), recomenda a atividade física para reduzir o risco cardiovascular e melhorar o perfil de gorduras, principalmente aumentando o HDL e reduzindo os triglicérides. A redução do LDL com exercício, ajuste na alimentação e perda de peso existe e funciona para a maioria das pessoas. Porém, existe uma minoria em que o componente genético é mais forte. Por isso, uma pessoa ativa e magra pode continuar com o LDL alto.

Um exame só basta para decidir?

Tubo de coleta de sangue para exame de colesterol

Não. Colesterol elevado, a gente não pode olhar um único número de um exame. Eu sempre olho o histórico: está elevado há alguns anos, ou começou a se elevar agora? Qual o nível dessa elevação?

E faço outras perguntas: como é o histórico dessa pessoa? Às vezes ela está saudável há um ano, mas foi desregrada a vida inteira. Temos como melhorar o estilo de vida dela? Emagrecer?

O que temos que ter em mente também é que se o paciente já faz tudo certo e temos pouca margem para alterar na alimentação ou em sua composição corporal, precisamos ser mais rigorosos.

O que muda quando o LDL passa de 190?

Muda bastante. Um LDL a partir de 190 mg/dL faz pensar em um componente genético envolvido, como a hipercolesterolemia familiar. A diretriz brasileira de 2025 classifica quem tem LDL a partir de 190 mg/dL como de risco alto, e quem tem LDL entre 160 e 189 mg/dL como de risco intermediário.

Nesses casos, o tratamento costuma incluir remédio, mesmo em quem treina e é magro. A escolha do remédio e da dose é sempre individual, feita na consulta.

Por que o tempo com colesterol alto conta?

Porque o efeito do LDL na artéria se acumula ao longo dos anos. A própria diretriz brasileira justifica a classificação de risco do LDL acima de 190 pelo papel da exposição cumulativa às lipoproteínas aterogênicas ao longo da vida.

Na prática, isso quer dizer que o tempo exposto ao colesterol alto também conta. Por isso, em quem tem pouca margem para melhorar com hábitos, a gente precisa sair da inércia e ser mais proativo no tratamento.

O que é a lipoproteína(a) e por que medir?

A lipoproteína(a), ou Lp(a), é uma partícula de gordura cujo nível é definido principalmente pela genética. Ela aumenta o risco de infarto mesmo em pessoas com LDL baixo. A SBC recomenda dosar a Lp(a) uma vez na vida, de preferência em nmol/L, e a Sociedade Europeia de Aterosclerose também recomenda medir pelo menos uma vez em adultos.

Pela diretriz brasileira, valores acima de 125 nmol/L (ou 50 mg/dL) já indicam risco aumentado, e valores a partir de 390 nmol/L (ou 180 mg/dL) indicam risco marcadamente elevado. É o corte que eu uso no consultório. A Sociedade Europeia de Cardiologia, na atualização de 2025, usa um corte um pouco menor, de 105 nmol/L.

E aí vem a pergunta: "tenho Lp(a) alta, significa que eu vou infartar?". Não, não significa. Eu explico assim: é como quando você acha um nódulo de mama. Ele pede uma vigilância maior. Quem tem Lp(a) alta não pode voltar ao médico a cada 5 anos. Como ainda não existe um remédio específico para baixá-la, o caminho é controlar de forma mais intensa e precoce os outros fatores de risco, como o LDL e a pressão.

Dá para largar o remédio do colesterol se eu melhorar?

É possível diminuir remédio de pressão ou de colesterol com emagrecimento, exercício, composição corporal adequada e mudança de hábitos. Não é impossível, mas não é fácil. E não vale para todo mundo. Mas é uma das coisas que eu mais incentivo em consultório. Fazer o paciente ser mais saudável para diminuir a maior quantidade de remédios que for possível. Temos um método de tratamento para isso, inclusive.

Quem já tem placa de gordura nas artérias, mesmo que discreta, não deve suspender o remédio do colesterol por conta própria. As estatinas costumam agir diretamente no entupimento de artérias e são a primeira escolha da diretriz brasileira pela eficácia comprovada na redução de eventos cardiovasculares e pelos seus efeitos anti-inflamatórios. Eu costumo explicar para os meus pacientes que elas agem como se passassem um insulfilme em cima da placa, para impedir a progressão. Sendo assim, mesmo com colesterol normal, se o paciente já tem algum grau de entupimento, em geral deve usar essa classe de remédio para essa funcionalidade.

Quando procurar o médico

Procure um cardiologista se você:

  • tem LDL alto em mais de um exame, mesmo treinando e comendo bem
  • tem LDL a partir de 190 mg/dL em qualquer exame
  • nunca dosou a lipoproteína(a)
  • tem pais ou irmãos com infarto, AVC ou colesterol muito alto em idade jovem
  • quer parar ou reduzir um remédio que já usa (nunca pare sozinho)
  • sente dor ou aperto no peito, falta de ar desproporcional ou tontura no treino

Perguntas frequentes

Exercício baixa o LDL?
Ajuda, mas pode não ser o suficiente. Segundo a diretriz brasileira de 2025, a atividade física melhora principalmente o HDL e os triglicérides. A redução do LDL é menor.

Sou magro e treino. Meu risco não é baixo de qualquer jeito?
O treino reduz o risco, mas não zera. Se o LDL é alto por genética, o risco continua existindo, e o tempo de exposição conta.

Preciso medir a lipoproteína(a) todo ano?
Não. Como ela é definida principalmente pela genética, a recomendação é dosar uma vez na vida. O que muda com o tempo é o acompanhamento dos outros fatores de risco.

Posso parar a estatina se o colesterol normalizar?
Não por conta própria. O colesterol normal com remédio mostra que o tratamento está funcionando. Quem já tem placa, mesmo pequena, em geral não deve suspender. A decisão é sempre com o seu médico.

Avaliação do colesterol de quem treina

Se você treina, tem colesterol alto e quer entender se precisa ou não de remédio, a consulta é o lugar para olhar o seu histórico completo. Para quem quer mudar hábitos com acompanhamento próximo, existe também o Programa VIVA, em que eu e a nutricionista acompanhamos o paciente toda semana. Eu atendo no Paraíso, em São Paulo, e você pode agendar a sua consulta pelo WhatsApp.

Leia também: colesterol alto, devemos sempre tratar?, infarto com colesterol normal: mito ou verdade e eco normal significa coração seguro para a maratona?

Referências

  1. Rached FH, Miname MH, Rocha VZ, et al. Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose: 2025. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. 2025;122(9):e20250640. https://doi.org/10.36660/abc.20250640
  2. Kronenberg F, Mora S, Stroes ESG, et al. Lipoprotein(a) in atherosclerotic cardiovascular disease and aortic stenosis: a European Atherosclerosis Society consensus statement. European Heart Journal. 2022;43(39):3925-3946. https://doi.org/10.1093/eurheartj/ehac361
  3. Mach F, et al. 2025 Focused Update of the 2019 ESC/EAS Guidelines for the management of dyslipidaemias. European Heart Journal. 2025. https://doi.org/10.1093/eurheartj/ehaf190

Dra. Caroline Nagano, médica especialista em Cardiologia e Medicina Esportiva · CRM-SP 145.246 · RQE 55136 (Cardiologia) · RQE 77291 (Medicina Esportiva)
Atendimento no Paraíso, São Paulo.

Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica.