Nem sempre. Entre os exames do coração para maratona, o ecocardiograma mostra a estrutura do coração e o teste ergométrico mostra como ele responde ao esforço, mas nenhum dos dois mostra uma placa de gordura que cause um entupimento moderado silencioso. E, depois dos 35 anos, é justamente o infarto, a doença que está por trás da maior parte das mortes súbitas no esporte.

Por isso eu costumo dizer: ecocardiograma normal não significa coração seguro para corrida. Isso não quer dizer que todo mundo precise de exames avançados, nem que esses exames não sirvam para nada. Quer dizer que a avaliação de quem vai para uma prova longa que exige muito do seu coração, como a maratona, precisa ser individualizada.

Por que a prova é diferente do treino?

Na prova, o coração trabalha no limite por horas. No esforço máximo, ele chega a bombear várias vezes mais sangue do que em repouso: em atletas de endurance de grande porte, o débito cardíaco (a quantidade de sangue que o coração bombeia por minuto) já foi medido acima de 40 litros por minuto (quase 8 vezes mais que no repouso), segundo revisão publicada na Experimental Physiology.

Se existe uma placa dentro de uma artéria do coração, essa demanda pode encontrar uma oferta de sangue limitada. E a prova soma outros fatores ao esforço. Nas minhas palavras: "na prova a gente quer bater recorde, a gente entrega o nosso maior potencial, a gente vai além, o cortisol está alto, a gente tem fatores do ambiente que interferem". Calor, desidratação e frio entram nessa conta.

Tem ainda um detalhe que todo corredor conhece: "a pessoa pode acordar ruim, doente, com diarreia 3 dias antes da prova, que ela não vai deixar de fazer a prova". Ela treinou meses para aquele dia.

Esportista é tudo igual?

Não. Tênis não é igual a futebol, que não é igual a musculação, crossfit ou Hyrox. E, principalmente na corrida, 5 km ou 10 km não é igual a uma maratona. São demandas diferentes para o coração e, por isso, pedem avaliações diferentes.

Na minha prática, maratona para cima é outra prateleira, e o Hyrox também é outra prateleira. A American Heart Association e o American College of Cardiology publicaram, em fevereiro de 2025, um documento sobre esporte competitivo e doenças do coração que diz que suas recomendações também podem ser aplicadas a quem pratica esporte recreativo de alto nível, como corredores regulares de maratona, triatletas, ciclistas e praticantes de CrossFit.

O que o ecocardiograma e o teste de esteira mostram, e o que não mostram?

O ecocardiograma avalia o tamanho do coração, a força de contração, as válvulas, a presença de sopros ou alterações que podem indicar doenças genéticas. O teste de esteira avalia a resposta da pressão arterial, da frequência cardíaca, arritmias e alterações gráficas ao esforço. Quando existe um entupimento das artérias do coração importante, acima de 80% mais ou menos, esse exame costuma dar alterado.

O que eles não mostram é a placa de gordura que ainda não reduziu o fluxo de sangue o suficiente para alterar o exame. Segundo a diretriz de cardiologia do esporte da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC), o teste de esforço de rotina em pessoas sem sintomas tem baixo valor para encontrar essa doença. A mesma diretriz lembra que, em atletas acima de 35 anos, mais de 80% das mortes súbitas são causadas por doença aterosclerótica das coronárias.

Ou seja: infelizmente, os nossos exames de check-up básicos não avaliam esse entupimento de artéria.

Quem deve ir além dos exames básicos?

Quem tem algum risco a mais e vai fazer um esforço intenso e prolongado. Entre os fatores que pesam nessa decisão:

  • idade, principalmente nos esportistas master (e master significa acima de 35 anos, e com ainda mais peso a partir dos 60 anos)
  • histórico de infarto ou doença das coronárias precoce nos pais ou irmãos
  • colesterol alto durante anos, principalmente LDL acima de 190 mg/dL, que a diretriz brasileira de 2025 já classifica como risco alto
  • lipoproteína(a) elevada, um fator genético que a Sociedade Brasileira de Cardiologia recomenda medir uma vez na vida
  • pressão alta, diabetes, tabagismo atual ou passado
  • o tipo e a intensidade da prova

A diretriz da ESC recomenda avaliação clínica com teste máximo para pessoas de risco alto que vão fazer exercício intenso.

O exercício diminui o risco de todas as doenças, mas ele não blinda você de ter alguma coisa. Até porque existem riscos invisíveis, como a lipoproteína(a).

O que é a angiotomografia de coronárias e quando ela entra?

Coração humano com as artérias coronárias em destaque

É uma tomografia com contraste que mostra o interior das artérias do coração. Ela permite ver se existe placa de gordura, mesmo sem obstrução grande. Junto desse exame, geralmente já vem o escore de cálcio, que mede a quantidade de cálcio nas artérias.

Para pacientes de maratona para cima, com algum risco envolvido, esse é o exame que eu costumo pedir. Mas não dá para sair pedindo para todo mundo. Já atendi maratonistas de 20 e poucos anos a quem eu disse: "você é muito novo, não acho que você precise agora". A idade conta, o risco conta, e a decisão é sempre caso a caso, na consulta.

Quando procurar o médico

Procure avaliação antes da próxima prova, e não só no check-up anual, se você:

  • sente dor, aperto ou queimação no peito durante ou depois do treino
  • tem falta de ar desproporcional ao esforço
  • tem tontura, desmaio ou quase desmaio no exercício
  • sente palpitação forte ou batimento irregular
  • percebe queda de rendimento sem explicação
  • tem histórico de infarto precoce ou morte súbita na família

Dor no peito forte, com suor frio ou falta de ar, durante ou depois do exercício, é emergência: pare e procure um pronto-socorro.

Perguntas frequentes

Quem treina há anos ainda precisa de avaliação cardiológica?
Sim. O treino é um ótimo fator de proteção, mas não substitui a avaliação. Todo mundo acima de 40 anos, e quem treina acima de 35, deveria ter um cardiologista para chamar de seu.

O teste de esteira normal descarta problema no coração?
Ele descarta muita coisa, mas não mostra placa que ainda não reduz o fluxo de sangue de forma significativa. Para a maioria das pessoas ele é suficiente. Para quem tem risco a mais e vai para prova longa, pode ser preciso complementar, porque placas com entupimentos menores podem complicar em provas longas.

Todo maratonista precisa fazer angiotomografia?
Não. A indicação depende da idade, do histórico e dos fatores de risco. Em muitos corredores jovens e sem fatores de risco, não há indicação.

Hyrox exige o mesmo cuidado que maratona?
É um esforço de alta intensidade e, na minha visão, dependendo do atleta, se for nível competitivo, está na mesma prateleira das provas longas quando o assunto é avaliação do coração. A conduta é individual.

Exame normal significa risco zero?
Não. Significa que, naquele momento, não há sinal de problema nos exames feitos. O exercício reduz o risco, mas não blinda.

Avaliação antes da sua prova

Se você vai correr uma maratona, fazer um triatlo, participar de provas ainda mais longas ou até mesmo competir no Hyrox, e quer treinar com segurança e performance, a avaliação cardiológica do esporte ajuda a decidir quais exames fazem sentido para você. Eu atendo no Paraíso, em São Paulo. Você pode agendar a sua consulta pelo WhatsApp ou ler mais sobre como a corrida melhora o coração. Se você treina e tem colesterol alto, veja também se quem treina precisa tratar o colesterol.

Referências

  1. Pelliccia A, Sharma S, Gati S, et al. 2020 ESC Guidelines on sports cardiology and exercise in patients with cardiovascular disease. European Heart Journal. 2021;42(1):17-96. https://doi.org/10.1093/eurheartj/ehaa605
  2. Kim JH, Baggish AL, et al. Clinical Considerations for Competitive Sports Participation for Athletes With Cardiovascular Abnormalities: A Scientific Statement From the American Heart Association and American College of Cardiology. Circulation. 2025. https://doi.org/10.1161/CIR.0000000000001297
  3. Rached FH, Miname MH, Rocha VZ, et al. Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose: 2025. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. 2025;122(9):e20250640. https://doi.org/10.36660/abc.20250640
  4. Joyner MJ, Dominelli PB. Central cardiovascular system limits to aerobic capacity. Experimental Physiology. 2021;106(12):2299-2303. https://doi.org/10.1113/EP088187

Dra. Caroline Nagano, médica especialista em Cardiologia e Medicina Esportiva · CRM-SP 145.246 · RQE 55136 (Cardiologia) · RQE 77291 (Medicina Esportiva)
Atendimento no Paraíso, São Paulo.

Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica.